Meu Primeiro Dia em Dublin: Fome, Frio, Primeiros Choques e a Sensação de “Agora é pra Valer”

Chegar à Irlanda num domingo frio e cinzento, no dia 15 de maio de 2015
, foi como apertar start na vida adulta longe de casa. Depois de encontrar minha acomodação temporária e conhecer os outros intercambistas que dividiriam aquele início comigo, sobrou uma única preocupação urgente: comer alguma coisa.

Primeira Missão: Sobreviver ao Domingo Irlandês

Na mesma rua do prédio havia um mercadinho pequeno e caro, mas era domingo, estava escuro, fazia frio e eu não tinha muita escolha. Eu já havia pago o táxi com os últimos €20 em espécie (como contei no post anterior), e ali diante do caixa, para comprar um arroz com frango de micro-ondas e uma cerveja, eu tinha duas opções:

  • usar parte dos €2.000 em notas, ou

  • testar pela primeira vez o meu cartão pré-pago, que carregava €4.000

Decidi arriscar. Digitei a senha apreensivo, com aquele medo bobo de dar erro e eu passar vergonha logo na estreia. Mas deu tudo certo. Primeira compra na Europa: aprovada. ✅

A refeição? Estranha. Mas foi a minha primeira janta oficial no continente europeu — sem glamour, sem foto e sem filtro.


Os Primeiros Brasileiros e a Lenda da Pizza de €5

Ao sair do mercadinho, encontrei dois brasileiros. Foi ali que eu confirmei duas verdades do intercâmbio:

  1. Perguntar é a primeira ferramenta de sobrevivência, e

  2. Sempre haverá outro brasileiro por perto

Eles me avisaram que aquele mercadinho era caro e me revelaram a dica de ouro dos intercambistas da região: a pizzaria Star Pizza, com a famosa promo de pizza + Coca por €5. Naquela noite eu não fui, mas guardei a informação para os próximos dias.



Primeiras Amizades e a Primeira Noite Oficial em Dublin

De volta ao apartamento, conversei com os outros recém-chegados — cada um com sua história, seus receios e expectativas. Um deles já falava inglês porque tinha morado nos EUA. Ele virou nosso porta-voz, tradutor e guia não-oficial, porque o resto do grupo tinha inglês beeeem básico.

E assim passei a primeira noite na Irlanda: com fome resolvida, uma cerveja na mão, novas amizades e a sensação de que o jogo tinha começado.


Antes das Aulas: Chip, Cidade e Primeiras Burocracias

As aulas começariam na segunda-feira para quase todos, mas por alguma razão o meu curso só começaria na quarta. A princípio achei estranho, mas acabou sendo uma vantagem: tive dois dias a mais para resolver a vida.

Lista básica do intercambista iniciante:

Chip de celular
Conhecer mercados mais em conta
Localizar a escola
Abrir conta bancária

Fui com meus novos amigos até a escola — só de entrar lá, a ansiedade diminuiu. No mesmo dia, fomos atrás do chip. Com a ajuda do nosso “tradutor”, contratamos um plano excelente: internet ótima por €20 fixos por mês, perfeito para quem dependia do Wi-Fi do apartamento até então.


O Banco e a Surpresa Inesperada

Naquela época, as escolas ajudavam os alunos com a solicitação de abertura da conta bancária, para comprovar os €3.000 exigidos pelo governo irlandês. Fui direcionado ao AIB, banco no qual tenho conta até hoje. No início, usei a conta apenas para o básico: guardar o valor exigido, movimentar despesas e, depois de um tempo, receber meus salários na Irlanda.

Com o passar dos meses, fui criando relacionamento e histórico com o banco — movimentando a conta, sempre com organização e sem nunca solicitar crédito ou cartão. E, cerca de um ano e meio depois, aconteceu algo que nunca mais vi outro intercambista relatar: o banco me enviou um cartão de crédito com um limite excelente, mesmo eu nunca tendo feito qualquer solicitação.

Eu nunca fui consumista, mas, estando sozinho na Europa, aquele cartão representou segurança emocional. Era como se o banco dissesse:

“Fique tranquilo. Se algo der errado, você não está completamente desamparado.”

Aquela carta com o cartão dentro não era só plástico — era símbolo de estabilidade, confiança e pertencimento em um país que até pouco tempo atrás era completamente novo para mim.

Curiosidade: levei o dobro do valor exigido pelo governo, estratégia que detalhei no post anterior: 👉 Como Consegui Poupar o Dobro para Meu Intercâmbio em 18 Meses



Conclusão: o Fim da Fase 1 — e o Início de um Desafio Maior

Concluir essa primeira lista — chip, banco, escola, deslocamentos e primeiras compras — me deu a sensação de que eu estava finalmente começando a me virar. No intercâmbio, a regra é simples: não dá para vencer tudo de uma vez — é um dia, um problema e uma conquista por vez.

Mas eu sabia que uma das fases mais importantes e desafiadoras ainda estava por vir: encontrar uma moradia definitiva. A acomodação da escola era temporária — geralmente apenas uma semana, e alguns ainda pagavam por uma extra por medo de não conseguir casa a tempo.

E é aí que começa a verdadeira maratona.

No próximo capítulo, vou contar a saga de encontrar um lar em Dublin — perrengues, burocracias, medos, aprendizados e aquela dose de superação que todo imigrante conhece bem.


📌

Se perdeu o capítulo anterior, leia também:

👉 Como Escolhi Meu Intercâmbio para a Irlanda: Pesquisa, Negociação e Planejamento


Comentários