É por isso que eu sempre enfatizo: não existe padronização quando se trata do ser humano. Cada pessoa vive experiências diferentes, de acordo com características que são inerentes a si mesma.
E no intercâmbio não é diferente.
Desde o primeiro dia na escola, eu já ouvia brasileiros falando sobre a necessidade urgente de encontrar um emprego para se manter financeiramente. Naquela época, o governo irlandês exigia que o estudante apresentasse €3.000, bastando um comprovante bancário no próprio nome. Depois disso, muitos simplesmente deixavam de se preocupar com essa questão.
O que acontecia muito era o seguinte: pessoas pegavam dinheiro emprestado de amigos, namorados(as) ou familiares apenas para “passar” o valor pela conta e tirar o extrato.
Para quem não sabe, na Europa é possível fazer depósitos em dinheiro diretamente no caixa eletrônico, sem envelope. A máquina conta o dinheiro, recebe, permite sacar novamente e ainda imprime extratos bancários. Ou seja, muitos só tinham dinheiro suficiente para sobreviver o primeiro mês. Arriscado, né?
Eu preferi fazer o oposto.
Além de levar os €3.000 exigidos para garantir os primeiros seis meses enquanto estudava, levei mais €3.000 para o restante do período em que ficaria no país. E como consegui economizar esse valor em dobro, explico melhor neste post 👉 (Leia aqui).
Por isso, encontrar um emprego não era a minha preocupação naquele momento.
O que eu realmente queria era desfrutar da cidade, aprender o idioma e viver a experiência com calma.
Eu caminhava muito, explorava cada cantinho de Dublin, visitava parques e aproveitava tudo o que a cidade oferecia gratuitamente ou a baixo custo. Toda primeira quarta-feira do mês, por exemplo, os museus eram gratuitos — e eu ia em praticamente todos.
Minha prioridade era simples: não comprometer minha estabilidade financeira e, principalmente, minha saúde mental.
Ao contrário da maioria, eu não viajei para outros países até começar a trabalhar e ganhar em euro. Minha lógica era clara: eu não nasci em Dublin, então estar ali já era, por si só, uma viagem. Não fazia sentido pagar para morar na Irlanda e sair do país antes de realmente aproveitá-lo.
E, infelizmente, vi de perto diversas situações desesperadoras: pessoas despejadas, sem dinheiro para comer, tudo por gastos excessivos com viagens, compras e uma vida que não condizia com a realidade financeira delas.
Eu evitava restaurantes caros, cozinhava em casa e não comprava cervejas mais caras como Heineken, por exemplo. Levava uma vida comedida, mas sem sofrimento. Eu me planejei para aquele momento e, sem saber se teria outra oportunidade como aquela, escolhi agir com cautela, paciência e consciência — aproveitando cada momento dentro das minhas condições.
A busca pelo primeiro emprego
Quando eu estava prestes a concluir meu primeiro curso de inglês, por volta do quinto mês e meio, já tinha uma noção razoável do idioma. Conseguia me comunicar, manter conversas, mesmo com limitações na fluência.
Foi então que comecei a me preparar para buscar meu primeiro emprego. Após o término do curso, teríamos mais seis meses “livres”, e aquele era o momento ideal para começar a recuperar o investimento feito no intercâmbio.
Alguns amigos que começaram comigo — e que também se planejaram financeiramente — estavam bem mais ansiosos do que eu. Eles procuraram agências de emprego, prepararam currículos, e aos poucos fui entendendo também como funcionava o processo. Cheguei a ir com dois amigos a uma agência para entrevista e cadastro do currículo.
Como eles se adiantaram, acabaram sendo chamados para trabalhar em uma fábrica de lâmpadas. Eu segui tranquilo. Até que um desses amigos morava com outro brasileiro que trabalhava em um restaurante e precisava de um kitchen porter (lavador de pratos).
E aqui vai mais um aprendizado importante: o boca a boca é muito mais eficiente do que um bom currículo — e isso é universal.
Foi assim que entrei no ramo da culinária. No início, trabalhei apenas alguns dias, principalmente nos períodos de maior movimento, ajudando na demanda e aprendendo a função. Vale lembrar que, na Europa, o sistema funciona por contrato e você recebe pelas horas trabalhadas.
Apesar de não estar desesperado por emprego, confesso: receber em euro faz toda a diferença. Depois do primeiro pagamento, todo brasileiro deixa para trás o fantasma da conversão do real para o euro (e vice-versa).
Mais do que estabilidade financeira e segurança, trabalhar trouxe um ganho enorme no aspecto educacional. As cozinhas são ambientes extremamente multiculturais, com pessoas do mundo todo, cada uma falando inglês com seu sotaque e dialeto. Essa riqueza cultural e linguística não existe nem nos cursos de inglês mais caros do mundo. É a vida real do imigrante.
E tudo se encaixou perfeitamente, porque a escola havia terminado — e agora o inglês seria aprendido na prática.
Nunca vou esquecer algumas palavras e expressões que a professora ensinava em sala, mas que simplesmente não “entravam” na minha cabeça — e que só fui entender na prática.
Um exemplo clássico aconteceu no trabalho. Havia um chef alemão que, ao me pedir algo, não ficava explicando demais: ele falava e apontava, exatamente como nós, brasileiros, fazemos no dia a dia. Foi assim que finalmente entendi expressões simples, mas que antes pareciam confusas para mim, como downstairs e upstairs.
Ele apontava para baixo ou para cima enquanto falava, e aquilo fez todo o sentido. Em vez de decorar palavras soltas, eu passei a entender a lógica por trás delas:
| Palavra | Significado literal | Como aprendi na prática |
|---|---|---|
| Down | Baixo | Ele apontava para baixo |
| Up | Alto / cima | Ele apontava para cima |
| Stairs | Escada | O local físico onde eu estava |
| Downstairs | Escada abaixo | Ação + direção |
| Upstairs | Escada acima | Ação + direção |
Ou seja, eu não decorei “downstairs” como uma palavra isolada. Eu entendi que era simplesmente “escada para baixo”, assim como upstairs era “escada para cima”. A partir daí, o idioma começou a fazer sentido de forma muito mais natural.
E aqui vale um parêntese importante: intercâmbio não funciona como os cursos de inglês no Brasil, onde o professor explica inglês em português o tempo todo. Nesse modelo, a pessoa até entende a regra, mas não internaliza o idioma. Por isso, muitas vezes, as pessoas estudam por anos e ainda assim não conseguem se comunicar de verdade.
No intercâmbio — e principalmente no trabalho — você aprende pela vivência, pelo contexto, pelo erro e pela repetição. É desconfortável no início, mas extremamente eficiente.
Foi assim que consegui meu primeiro emprego na Europa.
No próximo post, vou contar sobre a minha ascensão nesse ramo, as infinitas oportunidades que surgiram e como você, se estiver planejando um intercâmbio, pode se preparar antes mesmo de desembarcar na Europa.



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